O problema da felicidade é que ela era chata

Olá pessoas! Venho aqui hoje para tratar de um tema um tanto atípico para este blog: comportamento humano.

Na verdade esse texto tem muito mais a ver com o “Devaneios de Uma Mente Dadaísta”, mas dada à temática nerd da coisa, resolvi trazê-lo para cá.

Essa idéia me ocorreu dada a minha descoberta acidental do final da quarta temporada da série Dexter (série a qual recém comecei a assistir a terceira temporada).

Se NÃO QUISER LER O SPOILER PULE ESSE PARÁGRAFO (obrigada!). Então, fiquei sabendo que a Rita, atual mulé do Dexter e mãe do filho dele, foi assassinada.

Certo, não é esse o ponto. O ponto são os comentários das pessoas: ainda bem que mataram ela, a série tava um saco, tava muito chata, o Dexter lá com a vidinha normal dele.

Então…por que um serial killer de um seriado não poderia ter uma vidinha normal? É, bom emprego, esposa que ama, filhos. Felicidade.

Aí vocês me dirão, ah, porque o enredo da série vai ficar cansativo e desinteressante.

Fato.

Mas nós, serezinhos humanos e detestáveis, só nos entretemos com a desgraça alheia. Já viu algum super-herói feliz?

– Batman teve os pais assassinados em um assalto;

– Peter Parker se culpa pela morte do tio Ben;

– Demolidor ficou cego;

– Justiceiro teve a família assasinada;

– Magneto teve a filha morta num incêndio provocado pelos vizinhos;

– muitos X-men têm família mas tiveram suas vidas completamente bagunçadas pelo preconceito pelo qual foram atingidos.

– Mesmo aqueles que têm família, como o Indiana Jones, teve seus problemas de relacionamento com seu pai.

– Luke Skywalker não conheceu os pais e viu seus tios fritos na entrada de casa.

– O próprio Vader salvou a mãe seqüestrada e ela acabou empacotando.

– Harry Potter teve seus pais assassinados quando tinha um ano e foi criado por uma tia que detestava ele.

– Hércules num acesso de fúria provocado por Hera, matou a esposa e filhos.

– Ulisses, que tinha uma família, levou dez anos para retornar para casa após a guerra de Tróia e não viu o filho crescer.

– Ariadne, que se apaixonou por Teseu e o ajudou a sair do labirinto do Minotauro, foi abandonada logo após isso.

– Arthur teve um filho com a irmã que se tornou seu inimigo (e isso é só o que veio à minha mente agora).

Resumindo, que herói é feliz?

(Talvez o Reed e a Sue sejam felizes)

Ah, mas isso faz parte da trajetória do herói, vocês dirão. Pensando racionalmente, que protagonista de qualquer aventura iria se expôr a perigos inenarráveis, comprometendo a segurança das pessoas que ama. O que torna a vida acomodada e tranquila, do ponto de vista do leitor/espectador, chata.

O cacete.

A verdade é que sem problemas (dos outros) achamos a vida um tédio. Mas quero ver quem vai achar graça de perder o emprego ou um ente querido para tornar sua história mais interessante.

Será que a felicidade é realmente tão entediante? Será que não podemos aprender nada com a rotina?

É claro que não estou falando de comédias românticas, isso seria o outro extremo do irreal. Mas me recordo do filme Trainspotting e lembro que tudo que o personagem principal criticava no início do filme era tudo que ele almejava no final (ótima atuação do Ewan McGregor, aliás); ou do Clube da Luta, sobre um cara que tinha tudo materialmente, e não tinha nada.

E será que no final das contas não é isso?

Porque buscamos tanto segurança financeira e felicidade afetiva se criticamos tanto e fugimos disso em nossos meios de entretenimento?

Roteiristas, escritores, whatever: chutem o pau da barraca!

Chega de conflitos trágicos clichês. Uma história não precisa ser trágica para ser interessante (creio que Shakespeare discordaria, mas enfim…).

Vocês conseguem mais do que isso.

Anúncios

Um comentário sobre “O problema da felicidade é que ela era chata

  1. Ah, o caso de Dexter é diferente. Numa série mais convencional o Herói passa por dificuldades, para depois superá-las e ser feliz no final. Dexter não é um herói, ele não pode ser.

    O que torna a série interessante (pelo menos nas primeiras temporadas, e nos livros originais) é o conflito que o espectador/leitor fica ao simpatizar com a Dexter. Apesar de todo o charme, os autores precisam lembrar constantemente ao autor que Dexter é um assassino cruel, com um passageiro sombrio controlando sua vida. A felicidade não pode estar ao alcance dele.

    Mas enfim, de volta ao ponto principal do post: histórias sem conflitos clichês existem, basta saber procurar. Infelizmente é uma corrente que não tem força nenhuma na TV e cinema americanos, principais vítimas de nossa fagocitose cultural. Puxando de cabeça me lembro de About a Boy, com Hugh Grant (fora a tentativa de suicídio da mãe do guri, que não precisava existir).

    No oriente esse tipo de história é mais popular. Tem um monte de quadrinhos, filmes, séries de TV e animações japonesas e coreanas que no fundo são sobre a vida relativamente normal de alguém. My Sassy Girl, Honey & Clover, 5 Centimeters per Second, etc. etc.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s